O incentivo à leitura para surdos através do turismo cultural – Angelica Oliveira dos Santos

Resumo: nesta comunicação, apresenta-se uma proposta de roteiro turístico para pessoas surdas a partir de textos literários que enfatizam a memória, a história e a cultura do Rio Grande do Sul. Também investiga como que o turismo, a literatura e a língua de sinais brasileira (libras) podem ser agentes de incentivo à leitura desse público. Portanto, a pesquisa é exploratória e descritiva, de natureza qualitativa. Tem como base textos sobre Turismo (BENI, 2008; MINNAERT, 2009), Turismo e Acessibilidade, complementados por trabalhos sobre letramento literário (KLEIMAN, 2016; SOARES, 2010), e, também, sobre libras e língua portuguesa como segunda língua para surdos (KARNOPP, 2006; QUADROS, 2006; GESSER, 2009). O objetivo deste trabalho é elaborar uma proposta de roteiro turístico baseado em obras literárias e que possam servir de incentivo à leitura em língua portuguesa para os sujeitos surdos. Como objetivos específicos, destacam-se a investigação dos níveis de leitura do sujeito surdo; o estudo sobre o turismo como agente de leitura; o incentivo à leitura para pessoas surdas através do turismo e a verificação da viabilidade do projeto de turismo e literatura como incentivador de leitura do sujeito surdo. Tudo isso para tentar responder à seguinte pergunta: o turismo pode ser agente de promoção de leitura para o sujeito surdo? Se sim, como? Como resultados, destacam-se a criação de roteiros literários sobre a cultura, memória e história do Rio Grande do Sul, através da confecção de guias turísticos digitais com informações literárias sobre os atrativos visitados diretamente em língua de sinais.

Palavras-chave: libras; turismo e literatura; incentivo à leitura.

Introdução

A relação turismo e cultura são intrínsecas. Por isso que, nesse trabalho, considero a relação cultura e literatura indissociáveis e, proponho-me a investigar como o turismo pode promover a leitura em língua portuguesa do sujeito surdo. Ou seja, como que podemos aproximar o sujeito surdo da literatura e da língua portuguesa. O turismo movimenta e difunde informações de regiões e localidades, expressando valores naturais, culturais e sociais (BENI, 2017). Convém salientar que os turismos culturais são “os produtos diretos das manifestações culturais” (BENI, 2017, p.90), e, por isso, se desdobram em muitos gêneros: religioso, arquitetônico, artístico, e literário, por exemplo. Sobre esse último, destacam-se roteiros que relatam a história de uma região através de gêneros literários e de personalidades desse âmbito.

Turismo e acessibilidade

Apesar da crise econômica e dos problemas sociais históricos, o turismo no Brasil cresce a cada ano[2] e, naturalmente, também as pessoas com algum tipo de deficiência estão viajando mais[3]. Em 2016, o Ministro Interino do Turismo, Alberto Torres, afirmou que o Mtur vem desenvolvendo um planejamento para o turismo acessível em três eixos: acessibilidade nos atrativos e estabelecimentos turísticos; informação para os viajantes com deficiência por meio do guia turismo acessível e melhoria de infraestrutura nos destinos. Contudo, mesmo com a implementação de leis de gratuidade no transporte interestadual (Resolução nº 1692 de 24/10/2006 / ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres e Lei nº 8899 de 29/06/1994), ainda existem barreiras que dificultam o acesso ao turismo a pessoas surdas. A principal delas é a falta de acessibilidade comunicacional e, muitas vezes, a baixa proficiência dos mesmos na leitura em língua portuguesa. O turismo acessível também pode ser visto pela ótica e turismo social. Esse ramo social surgiu na Europa em meados do século XX, e, atualmente, Lynn Minnaert (2009) destaca a atividade como “um componente potencial da política pública em países onde ainda não está estabelecida uma base de direitos”[4] (2009, p.6. Tradução minha). Ela ainda destaca que o turismo pode ser agente de desenvolvimento social, onde expressa “um valor moral adicional, que visa beneficiar tanto o anfitrião como o visitante no intercâmbio turístico”[5]. (2009, p.5. Tradução minha). O Ministério do Turismo brasileiro aponta que o turismo social “é a forma de conduzir e praticar a atividade turística promovendo a igualdade de oportunidades, a equidade, a solidariedade e o exercício da cidadania na perspectiva da inclusão.” (BRASILp.6)

O turismo cultural como incentivo à leitura da pessoa surda

Obras literárias têm o poder de ressignificação do homem no mundo. Turismo também tem força de ressignificar valores e culturas. Portanto, ambos têm poder de reflexão do mundo e, para o sujeito surdo, esses novos significados contribuem para o seu desenvolvimento linguístico e social. Com o advento da tecnologia, a comunicação entre sinalizantes (surdos e ouvintes que utilizam libras) se propagou rapidamente, bem como o acesso à informação digital, e, por isso a proposta desse projeto é difundir a literatura através do turismo com o suporte de mapas digitais, com informações com vídeos em Libras. Para isso, pode ser utilizado o sistema de QR Code, além de outros suportes tecnológicos, onde os surdos acessarão as informações por imagens e vídeos dos locais visitados, deixando o percurso mais interativo e aproximando-os ao local, à cultura e à literatura. As propostas de sensibilização da leitura literária através do turismo cultural serão detalhadas na comunicação sinalizada, onde será exposto um exemplo de roteiro interativo e/ou guiado.

Aqui, nesse trabalho, consideram-se pessoas surdas competentes em leitura em língua portuguesa, o surdo que estrutura a escrita conforme Brochado (2003) estabelece os conceitos de interlíngua, no nível III. Além disso, o estudo também é direcionado a surdos proficientes na sua língua materna – a língua de sinais. Botelho (2002) destaca que “aprender a fazer o uso competente, constante e hábil de leitura e de escrita, é inteiramente dependente da aquisição de uma língua, a língua de sinais, e de linguagem.” (2002, p.65). Para os estudos de turismo, trata-se de uma contribuição que visa a abertura e estabelecimento de um novo mercado, o turismo inclusivo, permitindo que esta esfera da sociedade cumpra de modo mais efetivo seu papel social na inclusão de pessoas com algum tipo de deficiência. Ainda para esta área, este estudo visa compreender de forma aprofundada o turismo cultural e literário, o que também pode significar o desenvolvimento de novas estratégias de atuação mercadológica.

Para alcançar essa competência leitora, nesse estudo, considera-se interlíngua como “hipóteses e regras que começam a delinear uma outra língua que já não é mais a primeira língua daquele que está no processo de aquisição da segunda língua” (QUADROS, 2016, p.34). Ou seja, demonstram características de um sistema linguístico com regras próprias e vai em direção à segunda língua. Ainda sobre o assunto, Brochado (2003) destaca que a aprendizagem de língua portuguesa para surdos se dá através de alguns estágios. Dessa forma, destaca-se a etapa lll apenas, pois esse é o estágio em que os alunos surdos já utilizam a estrutura sintática mais elaborada:

INTERLÍNGUA III (IL3)

Neste estágio, os alunos demonstram na sua escrita o emprego predominante da gramática da língua portuguesa em todos os níveis, principalmente, no sintático. Definindo-se pelo aparecimento de um número maior de frases na ordem Sujeito, verbo e objeto (SVO) e de estruturas complexas, caracterizam-se por apresentar:

  • Estruturas frasais na ordem direta do português;
  • Predomínio de estruturas frasais SVO;
  • Aparecimento maior de estruturas complexas;
  • Emprego maior de palavras funcionais (artigos, preposição, conjunção);
  • Categorias funcionais empregadas, predominantemente, com adequação;
  • Uso consistente de artigos definidos e, algumas vezes, do indefinido;
  • Uso de preposições com mais acertos;
  • Uso de algumas conjunções coordenativas aditiva (e), alternativa(ou),
  • Adversativa (mas), além das subordinativas condicional (se), causal e explicativa (porque), pronome relativo (que) e integrante (que);
  • Flexão dos nomes, com consistência;
  • Flexão verbal, com maior adequação;
  • Marcas morfológicas de desinências nominais de gênero e de número;
  • Desinências verbais de pessoa (1ª e 3ª pessoas), de número (1ª e 3ª pessoas do singular e 1ª pessoa do plural) e de tempo (presente e pretérito perfeito), com consistência;
  • Emprego de verbos de ligação ser, estar e ficar com maior freqüência e correção.

Fonte: Brochado, 2003, p. 309-310

Considerando as características apresentadas acima por Brochado (2003), e por Quadros (2016), podem-se estipular os critérios de seleção das obras literárias para a confecção dos roteiros:

  1. Como esse conhecimento pode ser explorado antes de ser apresentado o texto em si?
  2. Qual o conhecimento que os surdos têm da temática abordada no texto?
  3. Quais as motivações para os surdos lerem o texto ou se aprofundar posteriormente?
  4. Quais as palavras fundamentais para a compreensão do texto?
  5. Quais os elementos linguísticos que podem favorecer a compreensão do texto?

Considerações finais

Pérez (2009) afirma que o turismo é um encontro entre culturas e sistemas sociais e que provoca mudanças. Mas, ao contrário de outros tipos de viagens e deslocações, como, por exemplo, as migrações, o turismo é uma deslocação voluntária na procura de algo, que não é somente material. Ao incentivar a leitura através da literatura, estamos decidindo por investir em arte para garantir a permanência do leitor. Soares (2010) afirma que “o elo entre a língua escrita, sociedade e cultura podem ser objeto de análise sob diferentes pontos de vista” (p. 27). Ou seja, existem conexões entre cultura e escrita e, com isso, podemos incluir o turismo.  Ao falar de turismo, fala-se sobre o sistema de turismo, pois essa área vem se firmando como ciência social e humana. Além disso, esse sistema engloba os meios sociais, ou seja, envolve o ecológico, o social, o econômico e o cultural. Destacando esse último, o turismo cultural preserva os valores culturais e valores específicos para cada turista. Levando em consideração esses aspectos, destaca-se aqui, uma sugestão de roteiro cultural que integra turismo e literatura para pessoas surdas: o Caminho do Negro em Porto Alegre.

Referências

BENI, M.C. Análise estrutural do turismo. São Paulo: Editora Senac, 2017.

BROCHADO, Sônia Maria Dechandt. A apropriação da escrita por crianças surdas usuárias da língua de sinais brasileira. 2003. 431 f. Tese (doutorado) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, 2003. Disponível em: <https://hdl.handle.net/11449/102476>. Aceso em: 23 ago. 2018.

GESSER, A. LIBRAS?:  que língua é essa? crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

KARNOPP: L.B. Literatura, letramento e práticas educacionais. ETD – Educação Temática Digital, Campinas, v.7, n.2, p.98-109, jun.2006.

LODI, A.C.B. (Org.); LACERDA, C.B.F (Org.). Uma escola, duas línguas: letramento em língua portuguesa e língua de sinais nas etapas iniciais de escolarização. Porto Alegre: Mediação, 2009.

MINNAERT, Lynn. Tourism and social policy: the value of social tourismAnnals of Tourism Research, 36 (2). pp. 316-334, April 2009

QUADROS, R.M; SCHMIEDT, M.L.P. Ideias para ensinar português para alunos surdos. Brasília: MEC/SEESP, 2006.

SOARES, M. Alfabetização e letramento. 6.ed. São Paulo: Contexto, 2010.

QUADROS, R.M; SCHMIEDT, M.L.P. Ideias para ensinar português para alunos surdos. Brasília: MEC/SEESP, 2006.

[1] Mestranda em Letras pela UniRitter, Especialista em Teoria e Prática da Formação do Leitor pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (2017) e em Educação Especial – Deficiência Auditiva, pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (2016). Graduada em Letras pela UniRitter (2015).

Atualmente é Intérprete de Língua de Sinais no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Educação de Surdos, na tradução e interpretação de Libras e na mediação e incentivo à leitura.

[2] Fonte: https://bit.ly/2ugKiJ6. Acesso em: 31 jul. 2018

[3] Fonte: https://bit.ly/2cGNLV4. Acesso em: 31 jul. 2018

[4] a potential component of public policy in countries here it is not already established on a rights basis, (MINNAERT, 2009, p.6)

[5] tourism with an added moral value, which aims to benefit either the host or the visitor in the tourism exchange (MINNAERT, 2009, p.5)

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