A docência, a tradução e a interpretação da LIBRAS no contexto educacional

Pedro Stieler *
UNÍNTESE

Passados séculos de sofrimentos e lutas, o surdo, enquanto sujeito
social, conquista direitos e garante respeito para com suas diferenças.
Diferenças hoje entendidas não mais com sentido negativo, limitador, mas
como parte de sua constituição enquanto sujeito.

Nesse sentido, a surdez deixa de ser um problema, um defeito e passa a
ser compreendida como uma condição biológica, característica da pessoa. Aos poucos foi se tornando fator de identificação cultural, berço de um novo jeito de falar, matriz de uma nova organização linguística.

A Língua de Sinais evoluiu da linguagem do gesto para uma língua,
possibilitando ao surdo desenvolver-se naturalmente enquanto sujeito surdo.
Traz a “fala”, a comunicação, a autonomia e possibilita a escrita de uma nova história. A Língua Brasileira de Sinais é uma língua ainda jovem, pouco conhecida, pouco estudada, restrita ainda ao “círculo dos surdos”, mas sendo brasileira é de todos, surdos e ouvintes. Ao ser regulamentada, dá início a existência de uma política linguística, uma revolução lenta e silenciosa ao estabelecer princípios fundamentais de uma sociedade bilíngue e inclusiva.
Numa postura visionária, preconiza que a sociedade do futuro utilize ambas as línguas, Língua Portuguesa e Língua Brasileira de Sinais.

Nesse contexto tanto o profissional docente quanto o profissional
tradutor intérprete, desempenham importantes papéis, trabalhando para
eliminar as barreiras na comunicação, especialmente, entre surdos e ouvintes, contribuindo para assegurar direitos sociais e linguísticos, promover a interação e melhor convivência, agregando, no contexto educacional, um viés mais pedagógico com o objetivo de possibilitar aprendizagens.

Não basta saber bem uma língua para atuar como um profissional da Libras educacional.

Os desafios profissionais são grandes, tão grandes quanto grandiosa
são essas duas profissões, requerendo uma formação qualificada, que considere os aspectos culturais e linguísticos da língua, os saberes específicos da docência, da tradução e da interpretação, bem como os conhecimentos das áreas e dos campos de atuação. Trata-se de uma formação em nível superior, em cursos de graduação e pós-graduação, aliada ao processo contínuo de atualização e busca de novos conhecimentos. Felizmente vive-se um momento em que está ultrapassada a ideia de que basta saber bem uma língua para atuar como tradutor intérprete ou mesmo como professor.

Em se tratando de espaços de trabalho, o campo educacional é o que
configura e configurará maior demanda por tradutores intérpretes, pois é nesse espaço que os surdos mantêm e manterão maior presença. Nas escolas de educação básica e instituições de ensino superior abrem-se também, cada vez mais, espaços de trabalho para o docente de Libras.

Sobre a atuação do tradutor intérprete nas instituições.

A atuação do tradutor intérprete em instituições de ensino precisa ser
acompanhada com um olhar diferenciado, pois a atuação na educação
ultrapassa os limites da tradução e interpretação, adentrando e envolvendo
aspectos pedagógicos. Essa interface pedagógica exige preparo e disponibilidade para conhecer conceitos e conteúdos de disciplinas das
diferentes áreas do conhecimento, nos diferentes níveis acadêmicos,
juntamente com conhecimentos de didática e de metodologias de ensino,
especialmente das línguas de sinais, as quais centralizam seus processos a
partir de concepções baseadas em recursos e artefatos visuais.

Toda essa qualificação só é possível a partir de uma boa formação como
base e uma postura pessoal de busca constante por novos conhecimentos e
aperfeiçoamento profissional, ao longo da carreira.

Como referenciar este texto:

  • STIELER, Pedro. Tradução e interpretação da Libras no contexto
    educacional: formação, atuação e desafios profissionais. Santo Ângelo:
    Uníntese, 2018, p.81-84. – ISBN 978-85-92924-04-1

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