Nunca é tarde para estudar: mulher inicia os estudos aos 47 anos e termina o doutorado aos 81

Nicole Utzig Mattjie

Voltar a estudar depois dos 40 ou 50 anos? Imagina, já é muito tarde. Talvez esse seja o pensamento da maioria, que acha que estudar “é coisa para jovem”. Contudo, o que para algumas pessoas parecia ser impossível, para Dalzira Maria, de 81 anos, foi a realização de um sonho antigo. Isso porque, nunca é tarde para estudar. Conheça hoje a história da mulher que iniciou os estudos aos 47 anos e terminou o doutorado aos 81.

Falta de apoio da família

Em primeiro lugar, é muito comum vermos casos de pessoas que reclamam da falta de apoio da família para realizar algum sonho, voltar a estudar, etc. No entanto, no caso de Dalzira sua situação foi muito pior, pois mais do que apenas “falta de apoio da família”, e pequena Maria era proibida de estudar pelo pai.

“Na infância, não estudei. Fui alfabetizada aos 13 anos. Para o meu pai, as filhas mulheres não precisavam estudar. A gente morava em uma área rural de Guaxupé, Minas Gerais, e não tinha escola perto. Só os filhos homens iam para a escola. Para as meninas, ele inventava inúmeros pretextos. Os anos foram passando, e eu sempre cobrando. Queria muito aprender a ler e escrever. Minha mãe se casou com outro homem e foi morar no Estado de São Paulo. Me mandava cartas mas, como eu não sabia ler, meu pai que as lia. Ele falava o que bem queria”.

Vestibular depois dos 40

A vida de Dalzira foi indo. Ela tentou voltar a estudar aos 18 anos, mas por conta das dificuldades da vida precisou parar e só conseguiu voltar a estudar novamente aos 30, mas precisou dar uma pausa novamente. Por fim, aos 47 anos de idade Dalzira finalmente conseguiu terminar os estudos do ensino básico e médio, através do programação de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Dalzira foi recompensada. A falta de apoio familiar que teve na infância foi compensada com o apoio da filha, que lhe disse que deveria tentar o vestibular e começar uma faculdade.

“Pensei que não fosse capaz de acompanhar o ritmo. Tinha medo de ficar para trás. Mas aí vi em um panfleto de uma universidade o curso de Relações Internacionais, e nele tinha uma disciplina chamada História da América Latina. Sempre quis saber o porquê dessas diferenças entre o Brasil e nossos países vizinhos”.

“Ouvi de um professor que a universidade não era para mim. Fiz vestibular aos 63 anos, passei no Centro Universitário Autônomo do Brasil. Estudava muito. Lia até de madrugada para tentar acompanhar. Mas sofri discriminações. Na hora de formar equipes para os trabalhos, ficava só”.

Nunca é tarde para estudar: mestrado aos 72 anos

Com 72 anos de idade Dalzira seguia forte nos estudos, rumo ao mestrado. Assim, ela começou o mestrado em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Segundo ela, foi uma etapa mais tranquila.

“Entrei e foi mais suave. Já estava mais descolada, mas mesmo assim o racismo estava sempre presente”.

“Sigo em frente porque me lembro de minha mãe me incentivando. Meu pai dizia que eu não era inteligente, mas minha mãe sempre exaltou minha inteligência. E eu persisto”.

Doutorado durante a pandemia

A pandemia pegou o mundo inteiro de surpresa e para Dalzira não poderia ser diferente. Desse modo, ela iniciou seu doutorado em Educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e logo depois começou a pandemia de Covid-19.

Com os estudos todos online Dalzira sentiu um pouco de dificuldades e precisou cuidar mais de sua saúde.

“Fiquei um pouco isolada mesmo pela necessidade, por causa da pandemia e porque não queria correr o risco. Quando comecei o doutorado, meu glaucoma [doença ocular] piorou. Fiquei um bom tempo sem enxergar quase nada. As pessoas me guiando para eu não cair. Mas fomos nos adaptando, insistindo, até a conclusão do curso”.

A educação é o caminho

De acordo com Dalzira, ela ainda não sabe se vai fazer pós-doutorado, mas ela já sente que a vontade de sua mãe foi cumprida.

“Não tem idade determinada para quem quer estudar. Há muitas mulheres que servem de inspiração. Aqueles que não tiveram oportunidade mas correram atrás. Aquelas que estão querendo mudar a sua história de vida. Estão na medicina, na odontologia. Principalmente as mulheres negras. Meu orgulho é saber que a vontade da minha mãe foi cumprida. O doutorado, para mim, é um ponto aonde eu não acreditava que conseguiria chegar, mas cheguei. A todas as mulheres que querem chegar: estudem. A educação é o caminho.”

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