Conceitos de fluência e proficiência na Língua Brasileira de Sinais

Pedro Stieler
Uníntese

            Em seu percurso formativo, o profissional da Libras, seja docente ou tradutor intérprete de Libras e Língua Portuguesa, precisa apropriar-se, conhecer profundamente as línguas envolvidas. Para os ouvintes, a proficiência em Língua Portuguesa se inicia naturalmente, desde a aquisição linguística da sua língua materna. Já a aquisição da Língua Brasileira de Sinais precisa ser aprendida, exercitada e dominada para que o profissional tenha, primeiramente fluência e posteriormente demonstre proficiência.

            Aprender a Língua de Sinais envolve os mesmos processos que outra língua qualquer, desde a leitura de sinais, o conhecimento do vocabulário, o desenvolvimento da competência de fala gestual, a produção textual, tanto como primeira ou como segunda língua.

Entende-se que o sujeito que tem a Libras como sua primeira língua, adquire-a naturalmente, no meio social a partir do contexto em que vive, no qual a Libras é a língua de instrução utilizada. Geralmente esses sujeitos são o surdo e o coda[1], inseridos naturalmente num ambiente linguístico desde que nascem.

Para o sujeito que a Libras se constitui como segunda língua, faz-se necessário estar exposto à situações de aprendizagem planejadas e intencionais, seja em ambiente formal de estudo ou no convívio com sinalizantes da Libras.


  • [1] CODA – Child of Deaf Adults – é uma expressão americana adotada no Brasil para se referir aos filhos ouvintes de pais surdos.

Dominar a língua envolve conhecimentos que vão além do seu uso no processo comunicativo, é preciso compreendê-la em sua profundidade, entender como ela se constitui e se estrutura linguisticamente, com relevância para os aspectos relacionados à identidade cultural e linguística envolvidas no ato comunicativo.

Fluência na Libras

            Diz-se que é fluente na Libras aquele que se comunica espontaneamente, com fluidez e naturalidade, que domina a língua, que a compreende. A fluência é compreendida como uma competência cognitiva que constrói um caminho automático no cérebro humano, que possibilita reconhecer os sinais ou palavras e compreender seu sentido em um discurso, sem esforços de decodificação.

A fluência é compreendida como uma competência cognitiva que constrói um caminho automático no cérebro humano, que possibilita reconhecer os sinais ou palavras, e compreender seu sentido em um discurso, sem esforços de decodificação.

Decodificar os sinais significa reconhecê-los e interpretá-los, constituindo-se em uma atividade linguística presente em qualquer comunicação. No entanto, aqui, compreende-se a decodificação como um estágio de aprendizagem da língua anterior à fluência, pois é uma etapa que ainda exige esforços do aprendiz para a compreensão dos sentidos dos sinais e palavras. Assim, quando o aprendiz adquire fluência na língua, essa decodificação não é feita com esforços ou de forma lenta, mas ocorre de forma automática, com rapidez.

A proficiência, por sua vez, é entendida como uma competência global do conhecimento da língua, visto que requer tanto a fluência como desempenho comunicativo quanto o domínio científico de uma língua, demonstrado através das competências instrumentais de compreensão, interpretação e produção textual tanto com o uso da língua padrão, que é a norma culta da língua usada no contexto de determinado grupo social, quanto com o uso da comunicação informal, com o uso de gírias e diálogos informais. O profissional proficiente em Libras reúne a competência da fluência e o conhecimento dos aspectos linguísticos e gramaticais da língua, que facilitam e desenvolvem habilidades comunicativas de uso da língua em diversos contextos coloquiais, familiares e profissionais.

A proficiência é uma competência global do conhecimento da língua que requer tanto a fluência como desempenho comunicativo, quanto o domínio científico de uma língua.


Com isso, chama-se a atenção para o fato de que ser proficiente não significa apenas ter um título ou certificado mas, sim, ter um completo conhecimento da estrutura da língua e a capacidade de emprega-la com excelência em situações de uso na fala e na escrita ou outra forma de registro[1], tanto formais quanto informais, à exemplo da linguagem acadêmica, jornalística, literária, coloquial e outras. Desse modo, a proficiência torna-se em uma exigência na formação profissional de quem deseja abraçar essa área de atuação.

Veja aqui um vídeo: 7 Dicas de como aprender Libras com a Uníntese

Importante destacar que a formação, enquanto processo, envolve o desenvolvimento da fluência e de estudos que possibilitem a proficiência na língua. São processos formativos essenciais para assegurar uma boa ou até a excelência na atuação como professor e/ou tradutor intérprete da Libras.

Atributos fundamentais para a prática da LIBRAS

Na prática profissional, além do conhecimento da língua, das habilidades de técnicas, outros atributos são fundamentais: o compromisso ético, o sentir-se efetivamente vinculado e amar o trabalho que escolheu. Um profissional feliz, realizado, agrega aos seus conhecimentos esses três elementos: amor, conhecimento e habilidades técnicas.

A língua é a expressão de uma cultura, pois traz em si a significação de tudo o que envolve o ser humano.

Assim, qualquer pessoa pode tornar-se um profissional da área, pois a habilidade comunicativa, enquanto competência profissional, é aprendida, desenvolvida, aprimorada. No entanto, é preciso que a pessoa se identifique com a profissão, invista na formação adequada, construa habilidades para o uso da Libras e tenha sensibilidade para com os aspectos da diversidade e da cultura, compreendendo a pessoa surda enquanto sujeito histórico, social, emocional, afetivo.

Veja também: Aprendizagem de Libras por um ouvinte


  • [1] Nas línguas de sinais, os vídeos são ferramentas usadas para registros da língua que equivalem à escrita, por exemplo.

Para finalizar esta reflexão, salientamos a importância de o docente e o tradutor intérprete de Libras procurar estreitar laços de proximidade com pessoas e grupos de nativos e sinalizantes da Libras, perceber e valorizar as diferenças entre pessoas, grupos e povos.

Como referenciar este texto:
STIELER, Pedro. Conceitos de fluência e proficiência na Língua Brasileira de Sinais, p.16-21. In_ STIELER, Pedro. Tradução e interpretação da Libras no contexto educacional: formação, atuação e desafios profissionais. Santo Ângelo: Uníntese, 2018. ISBN 978-85-92924-04-1

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