Estudo mostra a importância da Libras para a capacidade cognitiva dos surdos

Nicole Utzig Mattjie

Aluna da Unicamp publica estudo sobre a importância da Libras para a capacidade cognitiva dos surdos, para ela a Língua Brasileira de Sinais deve ser introduzida desde a primeira infância.

A dissertação com base na neurolinguísta da aluna Júlia Maria Vieira Nader, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trouxe luz sobre a importância da aquisição da língua de sinais desde a primeira infância pelos surdos e sobre a relação entre surdez e atraso cognitivo.

Segundo Júlia: “A sociedade consi­dera inevitável que os surdos tenham dificuldades de aprendizagem, que tenham uma comunicação ‘truncada’, que tenham um atraso no desenvol­vimento e, por isso mesmo, devam ser acomodados em determinados lugares restritos, nos círculos sociais e profissionais”.

A importância da Libras para a capacidade cognitiva dos surdos

Em primeiro lugar, a autora defende a Libras como a língua que pode dar aos surdos todas as possibilidades cognitivas propor­cionadas pela linguagem. Em sua disser­tação, ela se apoia em uma abordagem sócio-histórico-cultural que entende que as funções cognitivas não estão localizadas em estreitas e circuns­critas áreas do cérebro. Assim sendo, estas funções ocorrem por meio da participação de grupos de estruturas cerebrais operando em conjunto, de forma interdependente, dinâmica e plástica.

Além disso a autora utilizou autores como Luria, Bakhtin e Vygotski. A tese foi intitulada: “Aquisição tardia de uma língua e seus efeitos sobre o desenvolvimento cognitivo dos surdos”.

Outro fator que contribuiu para sua pesquisa foi a expe­riência com crianças e jovens surdos, não-oralizados, que frequentavam o Centro de Reabilitação Gabriel Porto, da Unicamp. Durante aprimoramento profissional, mostrou para a pesquisa­dora que, de fato, a aquisição tardia torna restritas não só as possibilidades comunicativas da criança em alguns círculos sociais, mas também as possibilidades de aprendizagem de conteúdos veiculados pela língua for­mal (oral ou de sinais), fundamentais para o desenvolvimento cognitivo. Ao deparar com a realidade de seus alunos, que não eram oralizados, mas também não tinham domínio da Libras, Júlia buscou embasamento teórico para entender as limita­ções da linguagem gestual caseira para a aprendizagem desses surdos.

O desenvolvimento comprometido pela aprendizagem tardia da Libras

Orientada pela leitura de Vygotsky, constatou que qualquer ser humano que sofra ausência de uma língua apresenta um desenvolvi­mento cognitivo comprometido.

A pesquisadora apontou ainda que as oportunidades são tardias para quem não adquire uma língua na infância. No entanto, existe a possibilidade de aprendizado em qualquer momento da vida. “Entendemos, a partir dos estudos de Luria, que o cérebro é plástico, dinâmico e está sempre se adaptando. Por outro lado, não pode­mos negar o que já se sabe sobre os processos maturacionais do cérebro, seus aspectos biológicos e neurofi­siológicos”, pondera.

O preconceito contra a Libras

Para Júlia, as questões relaciona­das à aquisição tardia de uma língua merecem atenção de estudos neu­rolinguísticos e neuropsicológicos. Na maioria dos casos, o preconceito com a língua de sinais parte da pró­pria família. “Na maior parte, as famílias acabam buscando o cami­nho da oralização, que é mais lento e difícil para o surdo”, acrescenta.

A pesquisadora enfatiza que, sem a língua, o surdo não sabe que ele pode dizer mais, restringindo a percepção que ele tem do mundo.

Um dos de­poimentos registrados por ela diz o seguinte: “Depois que aprendi a língua de sinais, percebi que eu podia ter o meu próprio pensamento”, descreve um entrevistado.

“Ele quer dizer que não precisa mais só repetir o que al­guém pensa, mas ele próprio é capaz de expressar seus pensamentos, ideias, criatividade. A dissertação me permitiu fazer este tipo de reflexão e ver a gra­vidade e as implicações de uma pessoa não ter uma língua”, reflete Júlia.

Mitos sobre a comunidade surda

A linguista enfatiza que a história dos surdos sempre foi marcada por mitos. No começo achavam que eles tinham atraso cognitivo por serem surdos, pois as pessoas relacionavam surdez à deficiência mental. “Hoje isso não está na teoria, mas, na práti­ca, muitos são tratados assim, já que lhes são garantidos apenas trabalhos técnicos, raramente acredita-se que os surdos possam dar contribuições intelectuais”, reforça Júlia. Ela acres­centa que as limitações cognitivas que alguns surdos apresentam se devem muitas vezes ao fato de não terem uma língua, não pelo fato de serem surdos.

Por muito tempo o surdo ficava isolado na sociedade. Depois surgiram as escolas espe­ciais e, recentemente, estão sendo incluídos na escola regular. Mas para Júlia, é preciso fazer a inclusão também na aprendizagem e, para isso, os professores têm de estar capacitados, pois os alunos acabam saindo prejudicados.

“Se o professor não compartilhar da mesma língua de seu aluno, com certeza a aprendizagem não estará garantida. Não basta apenas uma inclusão social, é preciso haver uma inclusão linguística”, enfatiza.

A pesquisadora acrescenta que os surdos têm todas as condições perfeitas para desenvolvimento cognitivo intelectual como qualquer ouvinte. “Precisam existir políti­cas linguísticas e educacionais que garantam que eles tenham acesso à língua o quanto antes”, enfatiza.

Fonte: Unicamp

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